Como abolir a escravatura?
O Ministério Público do Trabalho divulgou no último dia de fevereiro, a notícia do resgate, no período de 2005 a 2010, de 17.456 pessoas em trabalho escravo. O dado demonstra que o Brasil ainda não conseguiu se livrar de uma agenda muito antiga: trabalhadores em situação humilhante e aviltante, por necessitarem de empregos para sua subsistência e de sua família. Eles, por falta de opção e absoluta necessidade, terminam por se sujeitarem às regras impostas pelos exploradores. E, muitas vezes, levam consigo, os seus filhos.
Ótimo que 17.456 pessoas tenham sido retiradas de uma relação de escravidão com os seus empregadores. Mas, o que será deles agora? Conseguirão empregos de outro modo ou, novamente, depois de baterem de porta em porta, voltarão ao trabalho escravo por falta de opção? Quem sabe, alguns dos 17.456, não sejam recorrentes?
Eis aqui uma excelente oportunidade para quem planeja e executa políticas públicas: oferecer qualificação profissional aos trabalhadores, principalmente, para aqueles que são resgatados de uma relação de trabalho aviltante.
Sim, porque todos os dados econômicos e, recentemente, a notícia de um crescimento do PIB na ordem de 7,5%, uma situação que o Brasil não conhecia há pelo menos 24 anos, noticiam que o mercado de trabalho no País está aquecido.
Portanto, em tese, não deveríamos ter trabalho escravo. Se temos, é porque o Brasil não adota uma política inteligente para formação de seus trabalhadores, de sua gente. É certo, que o Brasil sofre há muito tempo com a ausência de uma política eficiente de qualificação de mão de obra, projeto que sequer preocupa os sindicatos de trabalhadores e as organizações que promovem campanhas contra o trabalho escravo.
O IPEA confirma a tese, quando demonstra que a maior dificuldade para se encontrar um emprego é a qualificação ineficiente do desempregado (37,7% dos entrevistados do IPEA disseram não conseguir se empregar pela falta de qualificação).
Precisamos de uma política de emprego planejada e unificada, pois somente assim deixaremos de ter bancos de empregos abarrotados de vagas, mas impossibilitados de preenchê-las. Nesse sentido, é necessário que o trabalhador escravizado ou desempregado receba o seguro-desemprego, seja qualificado pelo Poder Público e, após qualificá-lo insira-o no mercado de trabalho.
Agora, além da qualificação dos desempregados e escravos, é necessário que o Estado também atenda os filhos destes necessitados, dando a eles a educação e a qualificação necessárias para que, no futuro, não sejam obrigados a passar pelos mesmos sofrimentos de seus pais, encerrando definitivamente com a prática da escravidão, que, legalmente, foi abolida do país em 1888.
